24/08/2015

Fortaleza envergonhada

Artigo da professora de Filosofia da Unifor e membro doInstituto Latino Americano, Sandra Helenade Souza.

Imaginei esses dias a principal associação empresarial de qualquer cidade alemã recebendo um palestrante deputado que desembarcado no aeroporto local dissesse publicamente: “nós já vencemos uma vez, fomos derrotados, mas voltaremos” referindo-se ao 3º Reich. Soa absurdo, eu sei. Se mudarmos de continente e colocarmos a sandice no Chile, Uruguai ou mesmo Argentina, países que enfrentaram seus passados de ditadura como recomenda a internacional “Justiça de Transição” para consolidar consensos democráticos nacionais, haverá enorme dificuldade de crer razoavelmente em acontecimento dessa espécie. Mas a realidade costuma superar nossas piores distopias.

O protagonismo político do CIC colocou o Ceará na primeira página do País, o que se costuma chamar “A Era Tasso”, dos empresários “esclarecidos” no poder. Inúmeros trabalhos acadêmicos se referem a uma revolução burguesa tardia entre nós, uma “modernização conservadora” que, não obstante, representou avanços em setores diversos, da economia aos direitos humanos, como de resto em todo o País, desde o período da redemocratização. Os avanços, sociais e político-institucionais, ficaram bem aquém das promessas; negá-los, entretanto, é equívoco crasso.

Mas momentos políticos conturbados como o que vivemos promovem provas a céu aberto onde todos somos testados. E a pergunta fundamental é: o que entendemos por democracia? Ao desembarcar em Fortaleza, depois de proferir as bizarrices de praxe, Jair Bolsonaro bradou: “nós os derrotamos em 64 e vamos derrotá-los de novo”, ovacionado por uma ruidosa claque. Fiquei estupefata ao saber que ele daria uma palestra no CIC sobre “Ética na Política”. Compromissos não me permitiram comparecer. Procurei e soube que não há registro audiovisual algum desse sinistro.

O epíteto de “polêmico” hoje encobre discursos tenebrosos, assim como a ideia mal concebida entre nós de “liberdade de expressão”. Não há pactos consensuais sobre o que significa ao menos Estado de Direito, não só entre manifestantes ignorantes, mas entre uma entidade que já teve peso político determinante. Eu gostaria imensamente de ver a entrevista a que o deputado foi submetido na ocasião. As perguntas da imprensa são todas sobre corrupção, esse nosso encobrimento preferido. Queria ter podido entrevistá-lo. Meu aluno mais negligente faria perguntas consistentes sobre golpe de Estado, torturas e desaparecidos políticos. Sobre misoginia, homofobia e racismo, não seria necessário. Já conhecemos amplamente sua posição.

Esse acontecimento fala mais alto do que os cartazes infames perguntando por que a presidente não foi enforcada no Doi-Codi. Não se trata apenas de malucos nas ruas, mas de uma instituição respeitável que acolhe, a título de “democracia”, a palavra de alguém que estaria disposto, sem reservas, a defender isso hoje mesmo. Com convicção e aplausos. Alguém duvida?

Ética na Política? Bolsonaro? Façam-me o favor. Nada mais que um acinte. Vergonha moral, para nós e para o mundo civilizado.

Sandra Helenade Souza
souza.sandraelenagmail.com
Professora deFilosofia da Unifor e membro doInstituto Latino Americano deEstudos (ILAEDP)

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